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Golpes Pagos

Instagram vira ‘central de lojas falsas’ e preocupa usuários e empresas; entenda

Quadrilhas digitais se especializam em vendas falsas no Instagram, enganando consumidores e prejudicando negócios reais.
Foto: Adobe Stocjk

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Anúncios falsos, lojas que não existem e perfis hackeados se tornaram uma parte comum — e perigosa — do Instagram. Os golpes, feitos por meio de postagens na plataforma da Meta, se tornaram um problema constante entre os usuários brasileiros, que ao deslizarem o feed, precisam desviar de atividades fraudulentas.

O agravamento do problema tem origem em uma ferramenta legítima. A rede social permite que qualquer usuário pague para impulsionar o alcance de uma publicação. Em geral, lojas e empreendedores que vendem pela plataforma utilizam o recurso para que seus produtos obtenham mais visibilidade. O que acontece, também, é que criminosos, que se passam por vendedores, também podem utilizar essa ferramenta.

Isso significa que perfis fraudulentos, com cara de empresa legítima, estão ganhando terreno e enganando usuários, além de causar prejuízos para empreendedores e negócios verdadeiros.

Foi por meio de um anúncio impulsionado pela plataforma, que Catharina Sousa, estudante de 18 anos, gastou R$ 600 reais para comprar três ingressos falsos para o jogo da seleção brasileira na Neo Química Arena, que aconteceu no último dia 10 de junho.

Catharina explica que viu um anúncio no Instagram dizendo que a partida, que já estava com as entradas oficiais esgotadas, tinha recebido um lote extra. A comercialização oficial de bilhetes aconteceu pelo site Bilheteria Digital, que foi copiado para enganar os torcedores da seleção. “O site tinha o mesmo nome do Instagram da Bilheteria Digital, funcionava igual, com a mesma fila de espera e o lugar de compras. O que eu não me atentei é que, no site, estava escrito ‘bilheiteria’”, diz.

Após a compra, os ingressos não chegaram no e-mail. Catharina não achou mais a conta do Instagram em que o anúncio havia sido feito, portanto, ela não conseguiu denunciar diretamente o perfil para a plataforma. “Eu reportei no no meu banco que havia sofrido um golpe e abri um protocolo de contestação. O problema foi que o meu dinheiro já não estava mais na conta dos golpistas, então, não conseguiram aplicar o mecanismo de devolução”, diz.

“Achei que fosse oficial, justamente, porque apareceu no Instagram no mesmo formato que todos os outros anúncios. Acho que falta um filtro da plataforma sobre isso. Além do prejuízo financeiro, tem toda a vergonha de ter caído em um golpe desses. Foi muito frustrante”, diz Catharina.

Além do prejuízo financeiro, tem toda a vergonha de ter caído em um golpe desses. Foi muito frustrante  _ Catharina Sousa, vítima de golpe no Instagram

Em nota ao Estadão, a Bilheteria Digital disse que práticas de sites falsificados vêm sendo cada vez mais comuns. Por isso, a empresa afirma que trabalha no enfrentamento do problema.

“Nos últimos meses, os chamados ‘sites clones’ têm sido cada vez mais utilizados por golpistas. Esses sites, muitas vezes criados com apoio de inteligência artificial (IA), imitam com grande precisão o layout e a identidade visual de plataformas oficiais e fazem anúncios nas redes sociais, o que pode induzir os consumidores. Com isso, buscamos aprimorar os sistemas de identificação e alertarmos nosso público para sempre se atentar ao site oficial da Bilheteria Digital. Essas ações de golpistas afetam diretamente o nome da empresa”, diz a nota.

Patricia Peck, advogada especializada em direito digital e CEO do escritório Peck Advogados, afirma que a responsabilidade de cumprir com o anúncio é do anunciante. No entanto, a confiança do cliente está diretamente associada à plataforma. “É fundamental a implementação de mecanismos de checagem e de denúncia, para uma ação efetiva na prevenção e combate de anúncios fraudulentos”, diz.

Ao Estadão, a Meta disse que atividades como essas não são permitidas pela plataforma. “Atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas em nossas plataformas e estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra os Padrões da Comunidade do Facebook, das Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta através dos próprios aplicativos.

Mesmo assim, Guilherme Guimarães, engenheiro, de 31 anos, também foi vítima de compras por anúncios falsos na plataforma. Em março de 2024, a marca francesa de tênis, antes conhecida no Brasil como Vert, passou a se chamar VEJA. Esse contexto foi uma grande oportunidade para golpistas se aproveitarem da mudança da marca e anunciarem calçados com valores muito abaixo do padrão alegando “queima de estoque”.

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“O anúncio era muito fidedigno, com muitos detalhes, sem erros de português, inclusive, com descontos progressivos. Fiz a compra de três calçados por um valor um pouco maior do que R$ 600. Recebi e-mails dizendo que estava tudo certo e que a compra chegaria em até cinco dias úteis, mas nunca chegou”, diz.

Guimarães relembra que tudo foi muito bem coordenado, por isso, não se preocupou em tirar prints dos detalhes do site e do anúncio, que estava disponível tanto no Instagram. “Foi tudo muito bem pensado para que eu não cancelasse a compra no meu cartão de crédito, já que o prazo de cancelamento do banco é de sete dias úteis, mas a compra chegaria em até cinco dias”, diz.

O engenheiro diz que fez a denúncia na plataformas, mas estava resignado com o prejuízo. “Não fui atrás de fazer um Boletim de Ocorrência porque sei que essas coisas demoram e provavelmente não veria mais o meu dinheiro”, diz.

Ao Estadão, a VEJA disse que a equipe jurídica da marca monitora constantemente esses perfis e reporta as páginas ilícitas para as plataformas gestoras das redes sociais, além de ter um trabalho de comunicação para o enfrentamento dessa questão, que foi um empecilho, principalmente, durante a transição do nome da marca.

“Nosso diálogo com os nossos clientes acontece nos nossos canais, tanto site como redes sociais. É por lá que focamos as informações. No Instagram, por exemplo, temos um vídeo fixado no perfil @veja.br com orientações para evitar cair em golpes. Nele, alertamos para que desconfiem de promoções absurdas, pois temos como pilar não trabalhar com descontos em respeito a nossa prática de comércio justo. Em nosso site veja-store.com.br, além de realizar a compra, também é possível checar nossos revendedores oficiais”, diz a nota.

Outro armadilha que parece estar em alta é o golpe do cookie. Nele, perfis se passam por estabelecimentos que vendem, na maioria dos casos, a guloseima americana. As vendas falsas são de valores baixos, por volta de R$ 50, mas o volume constante se torna lucrativo. A reportagem identificou páginas do tipo com indícios de falsificação, entre eles comentários restritos a perfis que sempre têm apenas 4 fotos postadas. Os únicos comentários visíveis, em geral, são de perfis falsos, que elogiam os estabelecimentos.

Além disso, as dezenas de perfis encontrados seguem o mesmo padrão, com fotos de lojas reais e até posts de alerta sobre possíveis golpes envolvendo a marca. Eles também repostam stories de clientes de lojas verdadeiras como se fossem os vendedores dos produtos. Esse material foi apresentado à Meta, que não derrubou os perfis até a conclusão do texto. Questionada, a companhia não comentou o assunto.

Após ver, constantemente, anúncios de cookies em seu Instagram, Valentine Müller, estudante, de 20 anos, decidiu, finalmente, fazer seu pedido. Ela pagou R$ 36,90 pelos doces e, depois de receber uma mensagem sobre a fila de espera, pagou mais R$ 9,90 para “passar na frente”.

Depois que a compra foi feita, ela recebeu um link de rastreamento com o nome de outro estabelecimento, também fraudulento.

“Mandei mensagem, eles visualizaram e não responderam, então, desisti e abri um Boletim de Ocorrência. Também não adiantou, a única coisa que aconteceu, quando eu reclamei para o meu banco foi que eles bloquearam a minha única conta e cancelaram minhas senhas”, diz.

Além de vitimar clientes, esses golpes também afetam donos de pequenos negócios. Desde 2021, Tatiana Fernandes, de 32 anos, tem uma marca de doces chamada Mamy Cookies. No último dia dos namorados – data que costuma lotar a agenda de encomendas – foi surpreendida com diversas mensagens dizendo que seus clientes não haviam recebido os pedidos.

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O que aconteceu é que um dos perfis falsos havia adotado um nome de usuário no Instagram muito parecido com a loja de Tatiana. Ou seja, quando as vítimas iam pesquisar sobre a marca – que não existe -, acabavam encontrando os dados de Tatiana.

“Estava tranquila trabalhando e, do nada, meu WhatsApp encheu de mensagens com reclamações. Quando as pessoas pesquisavam no Google, chegavam ao meu número. Foi horrível, perdi dias de produção”.

Tatiana conta que após o episódio, voltou ao Instagram e fez uma série de vídeos explicando que não estava atrelada aos golpistas e que também era uma das vítimas. Segundo ela, apesar das diversas denúncias na plataforma, por golpe ou fraude, e um Boletim de Ocorrência, as contas falsas ainda permaneciam disponíveis na rede social. Ela estima um prejuízo de R$ 5 mil entre as perdas de encomendas, perda de tempo de produção e o valor gasto para obter o registro de marca.

“Eles não estavam usando meu logotipo, apenas o nome muito parecido com o meu. A Meta analisou a denúncia e não retirou a conta do ar. Eles continuam patrocinando o anúncio, mesmo sendo uma conta que viola todas as diretrizes da plataforma”, diz.

Segundo a advogada Patricia Peck, a plataforma tem o dever de agir a partir da denúncia, localizar e retirar a conta do ar. “A falta de medidas preventivas, ou a demora para agir para remoção de anúncios fraudulentos, pode ser entendido como omissão ou negligência por parte da empresa”, diz.

O que fazer caso seja vítima de um golpe pelo Instagram?

Com histórias cada vez mais criativas e novos golpes a todo o momento nas redes sociais, é importante saber o que fazer caso você também vire vítima. O Código de Defesa do Consumidor prevê leis que garantem o direito das pessoas prejudicadas nesse contexto.

De acordo com Patricia, o primeiro passo é fazer a denúncia na plataforma em que o golpe ocorreu. “É preciso reportar o anúncio como fraude ou golpe e guardar as provas, como prints da oferta, link do perfil e do anúncio patrocinado, cópia da conversa e comprovante de pagamento”.

Patricia também indica a abertura de um Boletim de Ocorrência, que pode ser feito presencialmente ou virtualmente na delegacia. “Isso é essencial para abrir investigação criminal e comprovar a tentativa de recuperação do prejuízo”, diz a advogada.

O próximo passo, para a recuperação do dinheiro, segundo ela, é entrar em contato com a instituição financeira ou banco que realizou o pagamento, caso tenha sido realizado via PIX, boleto ou cartão. Além disso, em casos de pagamento por PIX, também é possível acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED). “O consumidor pode também procurar os órgãos fiscalizadores, como o Procon ou o site Consumidor.gov.br, uma ferramenta oficial para resolução de problemas com empresas cadastradas.

Por fim, a vítima pode recorrer ao judiciário, com ação no Juizado Especial Cível se o valor for de até 20 salários-mínimos, ou na justiça comum, podendo pedir reparação por danos materiais e morais”, explica a advogada.

Ao que se atentar na hora de fazer compras pela internet?

Guilherme Feldman, CEO da Bilheteria Digital, diz que a empresa alerta os clientes a sempre procurarem sites oficiais e conferirem os dados antes de efetuar os pagamentos.

Segundo a empresa, as principais dicas práticas para evitar golpes digitais são:

  • Verificar sempre se o site possui certificado de segurança (cadeado no navegador e “https”);
  • Conferir o endereço oficial do evento e os canais autorizados de venda;
  • Evitar clicar em links recebidos por redes sociais ou mensagens, preferindo sempre digitar o endereço manualmente no navegador;
  • Pesquisar avaliações e reclamações em sites como Reclame Aqui e redes sociais antes de efetuar a compra;
  • Suspeitar de preços muito abaixo da média.

 

Por Estadão

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