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Golpes Digitais

Fraude de identidade digital cresce 36,6% no Brasil

País registrou quase 1,5 milhão de tentativas de fraude no primeiro trimestre de 2026. Instituições financeiras concentram seis em cada dez ocorrências
Foto: Mohamed Hassan / Pixabay

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O Brasil registrou quase 1,5 milhão de tentativas de fraude de identidade digital no primeiro trimestre de 2026. O número representa um crescimento de 36,6% em relação ao mesmo período do ano passado e equivale a uma investida a cada cinco segundos.

Os dados fazem parte da primeira edição do Mapa da Fraude, produzido pela Serasa Experian. Segundo o levantamento, caso os golpes tivessem se concretizado, poderiam provocar prejuízos de até R$ 1,98 bilhão para consumidores e empresas.

Ao mesmo tempo, o avanço das fraudes digitais acompanha a expansão das atividades realizadas pela internet. Hoje, consumidores abrem contas, fazem pagamentos, movimentam dinheiro e compram produtos diretamente pelo celular. A tecnologia facilita a rotina, mas também cria novas oportunidades para a ação de criminosos.

Instituições financeiras concentram tentativas de fraude
De acordo com o Mapa da Fraude, seis em cada dez tentativas de fraude de identidade ocorreram em instituições financeiras. O grupo inclui bancos, emissores de cartões, meios de pagamento e empresas de crédito.

Entre os segmentos analisados, os meios de pagamento lideraram as ocorrências, com 644.586 registros. Em seguida, aparecem telefonia, com 313.200 tentativas, e bancos e cartões, com 259.160.

Para o advogado Marco Aurélio Fernandes, especialista em segurança digital, o grande volume de operações financeiras ajuda a explicar por que esse setor atrai tantos criminosos.

No fim de junho, a Federação Brasileira de Bancos divulgou a 34ª edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, feita em parceria com a consultoria Deloitte. O estudo mostrou que, em 2025, os brasileiros realizaram 240,8 bilhões de transações por diferentes canais de atendimento.

Telefone celular: alerta ao novo cofre
Desse total de fraude registradas, 78% ocorreram pelo celular. Além disso, as transações por dispositivos móveis cresceram 11% em comparação com 2024.

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Segundo o especialista, os criminosos também mudaram a forma de atuação. Em vez de depender de ações presenciais, eles conseguem aplicar golpes digitais a distância e atingir muitas pessoas ao mesmo tempo.

“Nós já vivemos momentos de assaltos a banco e a carros-fortes, sequestros… Hoje, o alvo é o internet banking. Infelizmente, o criminoso tem uma vantagem e uma segurança maiores, porque ele não está correndo o risco de enfrentar a polícia. No caso de golpes por telefone, por exemplo, ele só precisa arquitetar a engenharia social como ferramenta criminosa. Aí, consegue atacar milhares de pessoas num dia”, afirma.

Engenharia social ajuda a ampliar os golpes digitais

A chamada engenharia social está entre as principais estratégias usadas pelos fraudadores. Nesse tipo de golpe, o criminoso tenta convencer a vítima a fornecer informações, realizar pagamentos, clicar em links ou executar alguma ação.

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Para isso, pode se passar por bancos, empresas, parentes ou outras pessoas conhecidas. Além disso, dados pessoais obtidos de forma ilegal tornam as abordagens mais convincentes.

Marco Aurélio também aponta a legislação como um dos fatores que ajudam a explicar o cenário. Segundo ele, as punições previstas para a fraude eletrônica ainda não representam um desestímulo suficiente para os criminosos.

“O criminoso pode pegar entre quatro e oito anos de prisão, dependendo do golpe. Ações envolvendo crianças e idosos, por exemplo, têm agravantes. Mas, se ele cumprir dois terços do tempo previsto na sentença, já poderá sair”, afirma.

Na avaliação do especialista, portanto, a combinação entre alcance tecnológico, possibilidade de agir a distância e engenharia social contribui para ampliar o número de tentativas de fraude.

Vazamento de dados aumenta risco de fraude de identidade

Outro fator apontado pelo especialista envolve os grandes vazamentos de dados pessoais. Em 2021, dois episódios expuseram informações como CPF, nome, data de nascimento e dados relacionados a benefícios do INSS de 223 milhões de pessoas, incluindo pessoas já falecidas.

Na ocasião, órgãos como a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Procon-SP notificaram a Serasa Experian e pediram explicações. A empresa negou ter sido a fonte dos dados.

Segundo Marco Aurélio, informações vazadas ajudam os criminosos a elaborar contatos mais personalizados. Afinal, quando o fraudador conhece dados da vítima, consegue dar maior aparência de legitimidade a uma ligação, mensagem ou outro tipo de abordagem.

O especialista reconhece que autoridades e instituições financeiras vêm ampliando mecanismos de segurança digital. No entanto, considera que a resposta ainda precisa ganhar velocidade.

“A estrutura é boa, mas não é tão rápida na resposta [às tentativas ou aos golpes efetivamente concretizados]. As instituições financeiras, por sua vez, precisam não apenas melhorar as ferramentas de segurança para os usuários, mas pensar mais neles e menos em proteger a si mesmas”, afirma.

Além disso, Marco Aurélio aponta conflitos sobre a responsabilidade quando uma fraude se concretiza. Em alguns casos, bancos alegam que o próprio cliente forneceu senhas ou códigos aos criminosos. Já os consumidores podem contestar essa versão e questionar possíveis falhas nos mecanismos de segurança.

Pessoas de 17 a 60 anos concentram as fraude de identidade digital

O Mapa da Fraude também mostra que a maior parte das tentativas de fraude de identidade digital atingiu pessoas entre 17 e 60 anos. Essa faixa etária concentrou 70,7% das ocorrências registradas no levantamento.

O dado contraria a percepção de que apenas pessoas idosas ou com menor familiaridade com a tecnologia estariam mais expostas aos golpes.

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Para Marco Aurélio, a alta conectividade ajuda a explicar o resultado. A população economicamente ativa usa contas digitais, aplicativos bancários, redes sociais, plataformas de pagamento e lojas virtuais com maior frequência.

Assim, quanto maior o número de atividades realizadas no ambiente digital, maior também pode ser a exposição a diferentes tentativas de fraude.

Por outro lado, familiaridade com a tecnologia não elimina o risco. A engenharia social explora fatores como confiança, urgência, medo ou oportunidade e, por isso, pode atingir consumidores de diferentes idades e níveis de experiência digital.

Inteligência artificial torna fraudes mais convincentes

A inteligência artificial generativa também passou a integrar as ferramentas usadas por criminosos. Com esses recursos, os fraudadores conseguem criar abordagens personalizadas e produzir conteúdos falsos com maior grau de realismo.

Entre os exemplos estão os deepfakes, técnica que permite substituir rostos, alterar expressões e clonar vozes em vídeos, imagens e áudios. Dessa forma, um conteúdo pode parecer produzido por alguém conhecido, embora seja falso.

Além disso, criminosos podem criar as chamadas identidades sintéticas, que combinam informações verdadeiras e falsas para formar perfis fictícios em larga escala.

Outro fenômeno apontado pelo Mapa da Fraude é o crescimento do chamado fraud as a service — ou fraude como serviço. Nesse modelo, grupos criminosos desenvolvem técnicas e ferramentas para explorar vulnerabilidades e depois comercializam esses recursos para outros fraudadores em ambientes da deep web e da dark web.

Também entra nesse cenário o spoofing, técnica de falsificação de identidade digital. Nesse caso, criminosos simulam contatos de bancos, empresas ou pessoas conhecidas para ganhar a confiança da vítima.

“Os criminosos se especializaram nisso. Com ajuda da IA, eles montam aquelas centrais de golpe e, de posse de dados sensíveis, vão ligando para as pessoas”, afirma Marco Aurélio.

Portanto, o avanço da fraude de identidade digital exige medidas em diferentes frentes. Bancos, empresas e autoridades precisam aperfeiçoar os mecanismos de proteção. Ao mesmo tempo, informação e educação digital ajudam o consumidor a reconhecer contatos suspeitos, evitar o compartilhamento de senhas e códigos e confirmar solicitações pelos canais oficiais antes de realizar qualquer operação.

E mais…

Em questões relacionadas a instituições financeiras supervisionadas, o consumidor pode registrar reclamação no Banco Central.

Os associados da PROTESTE também podem recorrer aos canais de orientação e defesa do consumidor oferecidos pela organização.

Além disso, você também pode tirar suas dúvidas iniciais no Assistente CDC da PROTESTE. É gratuito. Para acessar, basta baixar o app no seu smartphone e fazer um cadastro com seu e-mail.

Por Proteste | Coluna Seu Direito
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