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SAC Milenar

A primeira insatisfação de cliente da história foi escrita há 3,8 mil anos

Tabuleta de argila encontrada na antiga cidade de Ur, no atual Iraque, revela protesto de consumidor contra um comerciante da Mesopotâmia e entrou no Guinness Book
Artefato antigo está com dizeres na língua arcádia — Foto: The Trustees Of The British Museum

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SAC da Antiguidade? Se você acha que clientes barraqueiros são exclusividade do mundo moderno, saiba que 3,8 mil anos atrás, em plena Mesopotâmia, consumidores insatisfeitos já sabiam muito bem como cobrar seus direitos. Durante escavações arqueológicas realizadas no início do século XX na antiga cidade de Ur, localizada onde hoje é o sul do Iraque, pesquisadores encontraram a casa de um comerciante de cobre chamado Ea-Nasir, segundo uma reportagem da revista Forbes de 2018. Ele fazia parte da Alik Tilmun, uma poderosa guilda de mercadores da época. Mas, ao que tudo indica, sua fama entre os clientes não era das melhores.

Entre os pertences do negociante foram encontradas várias tabuletas de argila com mensagens de clientes irritados, reclamando da má qualidade dos produtos e do atraso nas entregas. A mais famosa delas foi escrita por um babilônio chamado Nanni e ganhou o título de “reclamação de cliente escrita mais antiga do mundo”, segundo o Guinness Book.

De acordo com a reportagem, a tábua, que mede 11,6 centímetros de altura e está escrita em acádio, no sistema cuneiforme, foi traduzida pelo assiriólogo A. Leo Oppenheim e publicada em seu livro Cartas da Mesopotâmia (1967). Atualmente, está preservada no acervo do Museu Britânico, em Londres.

No texto, Nanni acusa Ea-Nasir de ter prometido barras de cobre de qualidade e, no lugar disso, enviado material ruim e ainda maltratado o mensageiro. “Você ofereceu barras que não eram boas e disse: ‘Se quiser levar, leve; se não quiser, vá embora!’”, diz um dos trechos.

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O cliente segue indignado: “Quem sou eu para você me tratar com tanto desprezo? E isso que somos cavalheiros!”, dispara. Nanni também relata que sua prata foi retida pelo comerciante e que seus mensageiros tiveram que cruzar territórios hostis sem receber nada em troca.

A carta termina com uma ameaça elegante, mas firme: “A partir de agora, só aceitarei cobre de boa qualidade e irei pessoalmente selecionar as barras em meu quintal”.

O desfecho da história entre Nanni e Ea-Nasir permanece desconhecido, mas a tábua resistiu ao tempo como prova de que a indignação do consumidor é, literalmente, milenar. E cá entre nós: você provavelmente conhece alguém que faria um escândalo igual ou pior hoje em dia.

Confira o que diz a antiga reclamação:

“Diga ao Ea-nasir: Nanni envia a seguinte mensagem:

Quando você veio, você disse a mim: ‘Eu darei lingotes de cobre de qualidade de Gimil-Sin (quando ele vier)’. Você os deixou, mas você não fez o que me prometeu. Você colocou lingotes que não eram bons para meu mensageiro (Sit-Sin) e disse: ‘Se você quiser levá-los, pegue-os; se você não quiser levá-los, vá embora!’

Por que você trata alguém como eu com tanto desprezo? Eu enviei senhores mensageiros como nós para coletar a sacola com meu dinheiro (depositado com você), mas você me tratou com desprezo, enviando-os de volta para mim de mãos vazias várias vezes, e por meio do território inimigo. Existe alguém entre os comerciantes que negociam com Telmun que me tratou dessa maneira? Você só trata meu mensageiro com desprezo! Por causa daquela (insignificante) mina de prata que eu devo (?) Você se sente livre para falar dessa maneira, enquanto eu tenho dado ao palácio em seu nome 1.080 libras de cobre, e Umi-abum da mesma forma deu 1.080 libras de cobre, além do que nós dois escrevemos em uma tábua lacrada para ser guardada no templo de Samas.

Como você me tratou por esse cobre? Você reteve minha bolsa de dinheiro em território inimigo. Agora cabe a você restaurar (meu dinheiro) para mim na íntegra.

Tome conhecimento de que (a partir de agora) não aceitarei aqui nenhum cobre seu que não seja de boa qualidade. Eu irei (de agora em diante) selecionar e tomar os lingotes individualmente em meu próprio quintal, e exercerei contra você meu direito de rejeição porque você me tratou com desprezo.”

Por O Globo

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