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Brasil

Conservadores dominam pauta no Congresso e negam rótulo de extrema direita

Tratada como um grupo marginal da política até o início da década passada, a extrema direita se tornou uma das maiores forças políticas do Brasil.
Imagem: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

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Um encontro em Santa Catarina promete reunir a nata do conservadorismo brasileiro em Balneário Camboriú. O CPAC Brasil, que acontece neste fim de semana, reúne vários líderes da direita radical brasileira e mundial.

Bolsonaristas e aliados políticos de Jair Bolsonaro dominam o evento. Além do ex-presidente brasileiro e do presidente da Argentina, Javier Milei, o congresso terá palestras de José Antonio Kast, ex-candidato à presidência do Chile; e dos governadores Tarcísio de Freitas (SP) e Jorginho Mello (SC), além de senadores e deputados bolsonaristas, como Bia Kicis (PL-DF).

Direita X extrema direita. Embora boa parte dos participantes se apresente como políticos de direita, a ciência política passou a diferenciar os atores com ideias mais radicais, que se sobreponham aos consensos protegidos pela Constituição ou pela legislação penal, por exemplo. É a chamada extrema direita, um movimento que cresce em diversos países, como França, Alemanha e Espanha.

Nadando contra os consensos. Milei, por exemplo, se notabiliza por contestar os números de mortes da ditadura argentina, e por se contrapor aos avanços das leis que favoreceram as mulheres em seu país. O chileno Kast também se fez conhecido por criticar direitos de minorias, como dos grupos LGBTQIA+, que ele já disse fazerem parte de “uma ditadura gay”.

 
Negacionismo une a direita radical. Há algo em comum entre o ex-presidente brasileiro, Milei e Kast: os três negam as mudanças climáticas — “são mentiras socialistas”, diz Milei — vistas como empecilho para o desenvolvimento econômico e a liberdade individual de empresários.

PL do Aborto como bandeira. O bolsonarismo é visto como um ramo dessa direita radical, pela defesa de projetos que pleiteiam alterar leis, como o PL do Aborto, que tira direitos conquistados pelas mulheres em 1940.

Intervenção militar legal. A defesa de liberdades que vão contra o próprio estado democrático de direito é outro exemplo. A interpretação de que o artigo 142 da Constituição abria brecha para a intervenção militar foi uma das bandeiras do bolsonarismo para recusar os resultados das urnas em 2022.

Tratada como um grupo marginal da política até o início da década passada, a extrema direita se tornou uma das maiores forças políticas do Brasil. Para analistas ouvidos pelo UOL, esse grupo conseguiu normalizar posições que antes eram consideradas radicais e, com isso, puxou para a direita o eixo de todo o debate público no país.

O radicalismo está presente também na oratória de seus integrantes. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, o bate-boca faz cada vez mais parte da atividade parlamentar, como os que ocorreram recentemente entre parlamentares bolsonaristas e da esquerda em comissões de Educação, de Segurança Pública e de Direitos Humanos.

A agressividade que chegou à política na campanha de Jair Bolsonaro de 2018 se internalizou na Câmara. Estes deputados incorporaram a disposição de resolver as coisas no grito e de naturalizar ofensas a seus oponentes. Bolsonaro, por exemplo, xingava publicamente seus adversários. Foi o caso dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso, chamados de “canalha” e “filho da puta”, respectivamente, quando ocupavam a Presidência.

Mais do que oratória, a direita radical no Brasil se caracteriza pelas posições ultraconservadoras, sob influência da religião. É o caso do projeto que rejeita casamento de pessoas do mesmo sexo, ou dos discursos religiosos para questionar a lei que garante o aborto da mulher em casos de estupro, de fetos anencéfalos ou de risco de morte da mãe.

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Lideranças rejeitam rótulo de extrema direita
Muitos parlamentares se assumiam de extrema direita até o passado recente. Era um grupo que justificava que eram inabaláveis no combate à ideologia de gênero e à liberação das drogas. Mas agora, a oposição bolsonarista não gosta deste termo. Considera um rótulo da imprensa e cientistas políticos para menosprezar o movimento conservador.

O deputado Filipe Barros (PL-PR), líder da oposição na Câmara, reclama que o termo “extrema direita” é usado de forma pejorativa contra parlamentares conservadores. Na avaliação dele, a imprensa classifica como radicais parlamentares que são contra o aborto e a ideologia de extrema esquerda, numa tentativa de constrangê-los.

Na visão do deputado, o rótulo de extrema direita ataca a maioria da população, que também é contra estas bandeiras. Barros disse que o termo “extrema” não é empregado para definir pautas do PSOL, por exemplo.

No Brasil, o grupo tem abandonado a retórica militar. Após a derrota de Bolsonaro nas urnas, o Exército passou a ser visto como “melancia” — verde por fora e vermelho por dentro — e a estética militar deixou de fazer parte dos atos a favor do ex-presidente.

Não existe extrema direita, o que existe é uma tentativa de anulação completa de uma parcela considerável da população que tem valores morais e defendem bandeiras claras Deputado Filipe Barros (PL-PR), líder da oposição na Câmara.

A extrema direita tem conseguido, em grande medida, pautar o debate político no Brasil. Pesquisadores afirmam que a projeção nacional do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acelerada nos últimos 10 anos, levou correntes de centro e da direita tradicional a endurecerem suas posições para tentar manter o eleitorado.

Essa tendência é observada em temas como segurança, educação e liberdades individuais. Na visão dos pesquisadores, a extrema direita tem levado outros grupos políticos a adotar bandeiras como o da religião, o endurecimento de leis penais, o afrouxamento da proteção ao meio ambiente e a restrição a direitos de minorias.

Partidos de centro e direita têm abraçado pautas da extrema direita no Congresso. Estes grupos, por exemplo, se uniram para aprovar a PEC que criminaliza o porte de drogas em qualquer quantidade, o marco temporal das terras indígenas e o fim das “saidinhas” de presos para visitar a família, entre outras votações que impuseram derrotas ao governo Lula.

Para os cientistas políticos, a extrema direita é “uma força que veio para ficar”. Eles avaliam que esse grupo tem uma agenda ampla, que passa por investimento em articulação internacional e presença massiva nas redes sociais.

O Brasil sofre as influências dessa dinâmica de crise das democracias na atualidade. Há uma insatisfação da população com políticos tradicionais, com a corrupção, com o custo de vida. E isso, é claro, tem sido muito bem utilizado por políticos vinculados à extrema direita, alcançando então o eleitor que, muitas vezes encontra nesses políticos um discurso antissistemaJefferson Rodrigues, professor de ciências políticas da Unesp e autor de 4 livros sobre a extrema direita

Existe um movimento global de deslocamento do debate político para a direita. No Brasil, isso passou por uma normalização de posições extremistas, que antes eram inaceitáveis. O Bolsonaro se projetou nacionalmente falando coisas que nem os presidentes da ditadura militar se atreviam a dizerJorge Chaloub, professor de ciência política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora)

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O que separa a direita da extrema direita?
A extrema direita rompeu com compromissos democráticos que eram consensuais. No caso do Brasil, segundo eles, a direita moderada costumava defender garantias de direitos humanos e políticas públicas previstas na Constituição de 1988, princípios que passaram a ser questionados pela direita radical.

Os pesquisadores apontam que a extrema direita tenta desconstruir a confiança no Estado. Esse discurso antiestatal, por vezes negacionista, segundo eles, foi observado durante as enchentes no Rio Grande do Sul e também se manifesta nas políticas de Bolsonaro sobre armas e meio ambiente, que buscam esvaziar as instituições em prol do poder de indivíduos e de empresas.

Isso não significa que a extrema direita consegue impor toda a sua agenda quando chega ao poder. Apesar das vitórias eleitorais recentes no Brasil e no exterior, essa corrente ainda depende de concessões ao centro para se tornar ‘palatável’.

Quando chega ao poder, nenhum desses grupos de extrema direita faz uma ruptura muito radical. Eles vão transformando o sistema por dentro, com mudanças constitucionais ou ataques ao Poder Judiciário. Então é uma forma de atuação que usa as regras do jogo para corroer as instituições

-Janaína Cordeiro, professora de história contemporânea da UFF (Universidade Federal Fluminense)

Extrema direita aposta em redes e articulação internacional
Para especialistas, a extrema direita está à frente da direita tradicional e também da esquerda em vários aspectos. Além de ter maior domínio da propaganda nas redes sociais, com apelo especial ao público jovem, os líderes destes partidos estão mais avançados em termos de articulação internacional.

Na Europa, políticos da nova geração têm conquistado proeminência na direita radical. Figuras como Santiago Abascal, fundador do espanhol Vox, André Ventura, presidente do português Chega, e Jordan Bardella, presidente do francês RN, chegaram a posições de poder com menos de 40 anos e têm mobilizado o eleitorado jovem com mais sucesso que os concorrentes. Os três se caracterizam por discursos xenofóbicos, contra a imigração em seus países.

A direita conservadora trouxe uma nova geração de políticos que começaram nos movimentos juvenis e têm ótimo desempenho nas redes sociais. Estes jovens estão se formando não apenas como lideranças da política institucional, mas também como líderes populares, que sabem se comunicar com seus eleitores.

– Alexandre de Almeida, professor de educação em direitos humanos da UFABC (Universidade Federal do ABC)

A extrema direita tem, hoje, uma rede internacional bem mais robusta do que outras correntes. Eles se reúnem em congressos, trocam experiências e formam militância. É claro que existem divergências internas e nuances dentro da direita radical, mas ela tem se tornado cada vez mais coesa e conta com forte financiamento, com vários mecenas pelo mundo .

–  Thomás Zicman de Barros, doutor em ciência política, pesquisador na Universidade do Minho e na Sciences Po Paris. 

 

Por Uol

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