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Opinião

A NR-1 e as competências que gestores precisam desenvolver

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No Brasil, quem organiza o trabalho frequentemente chegou à função sem ter sido preparado para perceber o que está organizando. O contador que virou gerente de agência. O engenheiro que coordena equipe. O técnico promovido a supervisor. Cada um chegou à gestão pelo caminho da competência técnica sem que a formação o preparasse para perceber os riscos que a própria organização do trabalho pode produzir.

Entre 2015 e 2019, antes mesmo da pandemia, os afastamentos por transtornos mentais no trabalho cresceram 24% no Brasil, segundo dados da Previdência Social. A tendência era conhecida e documentada. Mesmo assim, o Parecer que revisou a formação em Administração até reconheceu as transformações do mundo do trabalho, mas não transformou o adoecimento mental relacionado à organização do trabalho em uma competência explícita de formação gerencial.

Em julho de 2020, o Conselho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CES nº 438/2020, que fundamentaria as novas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Administração, depois instituídas pela Resolução CNE/CES nº 5/2021. O documento atualizou a formação para o século XXI, incorporando competências ligadas à transformação digital, pensamento computacional, tecnologia e novas formas de atuação profissional.

Se essa lacuna aparece no curso mais diretamente ligado à gestão no Brasil, é razoável perguntar se ela também atravessa Contabilidade, Engenharia, Medicina e outras formações que colocam profissionais em posições de comando sem prepará-los para enxergar a organização do trabalho como fonte de risco.

O adoecimento mental relacionado ao trabalho não nasce no consultório onde é tratado. Nasce na forma como o trabalho foi organizado. Nas metas definidas sem considerar a capacidade humana de cumpri-las. No ritmo que eliminou o espaço onde decisões genuínas se formariam. Na mensagem enviada fora do expediente com emoji de músculo. O ambiente ensinou que isso é comprometimento. O afastamento é o ponto em que algo já se tornou insustentável. O problema começou antes.

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A partir de 26 de maio de 2026, as novas exigências da NR-1 passam a valer. Nos 90 dias seguintes, a fiscalização terá caráter inicialmente orientativo; depois, o descumprimento poderá gerar autuações. A norma exige que as empresas identifiquem e gerenciem fatores de risco psicossociais relacionados à organização do trabalho — metas, ritmo, exigência de tempo, autonomia, conteúdo das tarefas, relações hierárquicas e aspectos cognitivos.

É um avanço. Mas desloca a pergunta para um ponto anterior à fiscalização: quem foi formado para organizar essas dimensões do trabalho considerando os riscos que elas podem produzir?

Não é responsabilidade exclusiva do psicólogo, do médico do trabalho ou do RH. É também — e decisivamente — uma responsabilidade de gestão. A NR-1 agora exige que a gestão enxergue a organização do trabalho como fonte possível de risco.

Algumas instituições de ensino superior já contemplam o tema em suas matrizes. Algumas empresas já investem em capacitação de líderes e programas de saúde mental. São iniciativas válidas. Medidas individuais ou clínicas podem ajudar pessoas. Não substituem, porém, o gerenciamento dos fatores de risco presentes na organização do trabalho.

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Uma pesquisa com professores de cursos de Administração de universidades federais, publicada em 2015, indicou fragilidades na formação dos alunos para lidar com temas como trabalho, saúde, prazer, sofrimento e adoecimento relacionados ao trabalho. A receptividade ao tema era relevante. O problema não parecia ser rejeição, mas insuficiente incorporação formativa.

Desde então, houve avanços: cursos atualizaram matrizes, empresas passaram a investir em saúde mental, e o próprio Enade, aplicado aos estudantes de administração incorporou temas ligados à gestão de pessoas, liderança, riscos, relações de trabalho e tomada de decisão. Mas uma coisa é o tema aparecer de forma dispersa; outra é ser convertido em competência explícita de formação gerencial para reconhecer a organização do trabalho como fonte de risco psicossocial. É essa lacuna que a NR-1 tornou impossível de ignorar.

A NR-1 não tornou urgente apenas a atualização dos documentos. Tornou urgente uma competência gerencial que a formação ainda não consolidou: perceber quando metas, ritmo, autonomia, hierarquia e conteúdo das tarefas deixam de ser apenas escolhas de gestão e passam a produzir risco.

Sem essa competência, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) pode até registrar o problema. Mas não alcança sua origem.

Fernando Wosgrau é administrador, mestre em Agronegócios, professor de Administração e ex-conselheiro de Educação do Estado de Mato Grosso (CEE-MT).

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