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Crime em Suzano

Massacre de Suzano revela culto às armas e estado de barbárie, dizem especialistas

Brutalidade e variedade do arsenal utilizado no ataque à escola chamam atenção de antropólogos

14/03/2019 - 11:59 (Foto: Amanda Perobelli / Reuters)

 Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o ataque à Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, exige reflexões sobre violência que vão além de facilitar ou dificultar o acesso a armas de fogo. Com os atiradores Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, foram encontrados itens variados, como um revólver calibre .38 com numeração raspada, machados, equipamento para preparar coquetéis molotov e uma balestra — misto de espingarda com arco e flecha.

A origem dos armamentos ainda não foi totalmente esclarecida. Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, alerta que a conduta dos criminosos traz à tona um “estado de barbárie".
É uma tolice, neste momento, discutir a ferramenta utilizada antes de investigar a motivação por trás daquilo. Chamou a minha atenção o segundo rapaz, que entra com o machado e desfere golpes em pessoas que já estavam mortas. É um nível de selvageria inexplicável — afirmou Storani. — O problema é muito mais grave do que armar ou não a população. Estamos falando de um ambiente de falta de respeito à vida do outro.
O antropólogo classificou como “ideológica” a discussão sobre o impacto do acesso a armas de fogo no caso de quarta-feira. Após a tragédia, defensores do desarmamento criticaram a facilidade na posse de armas, ampliada por um decreto do presidente Jair Bolsonaro em janeiro. Já o senador Major Olímpio (PSL-SP), aliado de Bolsonaro, argumentou que os funcionários da escola teriam condições de reagir e encurtar a ação dos criminosos se estivessem armados. Para Storani, a rápida chegada da Polícia Militar — acionada primeiro por conta do tiroteio na concessionária de carros do tio de Guilherme, que também faleceu — foi o que evitou uma ação ainda mais brutal por parte dos criminosos.
José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina (Inscrim), ressaltou que é preciso investigar como os atiradores tiveram acesso às armas. Na avaliação de Bandeiram, revólveres calibre .38 são comuns no mercado ilegal, muitas vezes desviados de empresas de segurança privada. O especialista também chamou atenção para os outros itens no arsenal carregado por Guilherme e Luiz Henrique.
Arco e flecha e machado são equipamentos que você encontra em lojas esportivas ou na internet. E isso, quando cai em mãos erradas, causa problemas — pontuou Bandeira. — Caberia a cada estado uma legislação que restringisse esses artefatos. Como foi feito no Rio, por exemplo, que proibiu porte de arma branca com lâmina acima de 10cm.
A antropóloga Alba Zaluar afirma que o acesso a armas “tem que ser discutido de forma mais séria”. Para a especialista, pior do que a facilidade de acesso é a valorização do uso de armamentos como forma de resolução de conflitos. Zaluar criticou ainda retóricas políticas que, na sua avaliação, contribuem para gerar um clima mais bélico.
Há um contexto político, um discurso que alimenta conflitos, o uso da violência. Tudo isso contribui para esse clima — afirmou.
Fonte: O Globo Online | Edição: Redação